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5 de mai de 2012

Atitude Para Ação


Quando, no século XIX, o cientista político francês Alexis de Tocqueville deixou a França monárquica e foi para os Estados Unidos, onde escreveu Democracia na América, ele ficou impressionado com a liberdade institucional do país. Era como se o cidadão americano fosse mais cidadão que o francês. Nem por isso, porém, a sociedade americana deixava de ter sua hierarquia, regras, limites e controles. Tocqueville observou: “Acredito que a Liberdade seja menos necessária nas grandes do que nas pequenas coisas, porque é nos detalhes que é perigoso desservir o homem. Significa contrariar o tempo todo o indivíduo, irritá-lo e lembrá-lo a cada instante da sua condição.1
Essa conclusão é de grande importância. O cidadão americano não tinha liberdade para definir a política econômica, as relações internacionais ou outras grandes questões do país. Nem devia esperar isso. Porém o sistema lhe garantia liberdade e autonomia para trabalhar e expressar sua opinião.
E o que aconteceria numa situação contrária, onde o indivíduo é tolhido até nas pequenas coisas, não tem autonomia nem liberdade de ação, não pode fazer questionamento, não tem opinião relevante? Como a inquietação é inerente ao ser humano, desviaria sua energia para ações de revolta, contestação, ou levaria o pensamento a ignorar o cotidiano de sua realidade.
Essa é a situação do ambiente de trabalho em muitas empresas e explica, pelo menos em parte, a existência de funcionários desinteressados (que não têm iniciativa e só agem quando mandados), o medo e a resistência frente a mudanças e novas situações, bem como a falta de comprometimento com o trabalho. Ajuda a explicar também a existência de gerentes superatarefados, presos aos processos e aos problemas do dia-a-dia,  eternamente frustrados e desapontados por terem que verificar tudo enquanto os funcionários  não colaboram, não tomam iniciativa mesmo conhecendo a existência de desperdício e ineficiência no trabalho.
É possível mudar esse quadro? Certamente que sim, mas não com base em fórmulas prontas, nem com imediatismo. É preciso criar uma cultura nas relações de trabalho e as condições para sua manutenção e aperfeiçoamento. Mas como são inúmeras as funções, as atividades, as relações e interações nas organizações, e a compreensão humana tem muito de subjetivo, essa tarefa é, antes de tudo, uma questão de atitude - de discernimento e de ação.
A percepção da situação e a reflexão sobre o tema são os primeiros passos para desencadear mudança em prol de melhoria. Porém nenhum resultado consistente será alcançado sem a compreensão que esse é um processo de aprendizado contínuo. E essa atitude deve partir dos que têm poder de decisão, afinal os subordinados estão expostos à situação de acomodamento e não teriam poder de desencadear uma ação diferente – qualquer intervenção de um gerente mudaria tudo. Não é incomum o gerente que consegue ter essa percepção, mas apenas cobra ação de seus subordinados, quando o ideal seria atuar também junto à direção, repensando e implementando as condições para melhores relações das pessoas com o trabalho – autonomia, responsabilidade e avaliação das capacidades e potencialidades.
Nesse sentido, é preciso sair do modismo da qualidade, do discurso, e entrar na atitude de qualidade, pensando a organização como um todo. O filósofo alemão Immanuel Kant, enfatizava a importância da atitude ao destacar o agir com coerência: “Age de tal modo que a máxima de tua vontade possa sempre valer simultaneamente como princípio para uma legislação geral.2
Não cabe à direção de uma organização esperar que a sociedade se adeque para formação de indivíduos mais preparados, que possam ser mais comprometidos com o trabalho (enquanto a tecnologia e o mercado mudam em curto espaço de tempo, são necessário 20 anos para formação básica de um indivíduo). Antes de tudo, é preciso assumir o compromisso e ter a atitude para mudar a inércia organizacional.
Normalmente as empresas se escandalizam quando mensuram prejuízo, ineficiência, aumento de desperdício. Mas não percebem que, quando isso acontece, algo muito importante já foi desperdiçado: o trabalho humano e sua potencialidade.
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1. DE MASI, Domenico. O ócio criativo. 2000. p. 235.
2. AGUIAR, Maria A. F. Psicologia aplicada à administração. 1992. p. 24.

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