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27 de set. de 2019

Banco Inter: a Velha Burocracia Digital


Eis que resolvi fazer uma conta digital no Banco Inter, após pesquisar a respeito.

 

Minha intenção era fazer uma conta para pessoa jurídica. Aí esbarrei na primeira dificuldade: para ter uma conta de pessoa jurídica, primeiro seria necessário fazer uma conta para pessoa física.
Achei estranho. Teria que abrir uma conta para pessoa física sem nenhuma intenção de usar, mas decidi ir em frente.
Aí começaram os problemas.
Para cadastro no Banco Inter, é necessário enviar foto de CNH (Carteira Nacional de Habilitação) ou RG (Registro Geral, carteira de identidade).
Bom, minha CNH estava vencida, o que não seria (ou deveria ser) um problema para fins de identificação. Já minha RG é muito, muito, antiga.
Resolvi fazer um teste, mandando outro documento de identificação, válido e mais recente.
Não aceitaram. Só pode CNH ou RG.
Então resolvi mandar a CNH.
Não aceitaram, pois estava vencida.
Ora, mas a intenção era me identificar ou saber se estou habilitado para dirigir veículo? Além disso, a CNH tem o número do RG e, mesmo vencida, é reconhecidamente válida como documento de identificação. A esse respeito, cabe destacar o Ofício Circular nº 2/2017 do CONTRAN (1):

(...) CONTRAN, em sua 158ª Reunião Ordinária, realizada no dia 21 de junho de 2017, no uso da atribuição que lhe confere o art. 12, inciso VII, do Código de Trânsito Brasileiro - CTB, entendeu que a Carteira Nacional de Habilitação - CNH pode ser utilizada como documento de identificação em todo o território nacional ainda que em momento posterior à data de validade consignada no referido documento, uma vez que esta refere-se apenas ao prazo de vigência do exame de aptidão física e mental.

No mesmo sentido existe decisão do Superior Tribunal de Justiça (2).
Mas nada disso vale para o Banco Inter. Vai ver é um banco para motoristas e não fui informado...
De qualquer modo, fiz o envio do documento de identidade, apesar de antigo e com assinatura que nem utilizo mais (que tive que repetir, para fins de comprovação).
Novamente rejeitado. Dessa ver porque o documento era antigo. Por acaso os dados da pessoa mudariam ao longo do tempo?
Restou desistir. Mas, antes, eu havia encaminhado mensagem para Ouvidoria do Banco Inter, questionando sobre a plena validade de CNH como documento de indentificação, mesmo quando vencida.
Recebi a seguinte resposta:


Restou desistir. Não vou tirar segunda via de RG ou fazer nova CNH apenas para atender exigência de banco, sem nem mesmo saber se teria conta aprovada e, mais ainda, quando a intenção nem era fazer uma conta para mim, mas para pessoa jurídica.
Desinstalei o aplicativo.
Adeus, Banco Inter!

...
1) Ofício Circular nº 2/2017/CONTRAN, disponível em: https://tinyurl.com/y5myv82w
2) STJ, Recurso em Mandado de Segurança n° 48.803. Disponível em: https://tinyurl.com/y66o9hw7

23 de jun. de 2019

Um Péssimo Profissional na Workana


Acessei o site Workana (https://www.workana.com), de contratação de freelancers, e publiquei um projeto para adequação de uma foto.
Acabei por aceitar a proposta de trabalho de um freelancer chamado Marcelo Silva, que combinou entregar o serviço em menos de 24 horas.


Finalizado o trabalho, tive uma grande decepção. Ficou tão ruim que considerei que eu teria feito melhor (e fiz).
Respondi que o trabalho não estava adequado, bastando comparar com os exemplos que eu havia indicado no anúncio. Era algo tão óbvio que preferi não entrar em detalhes, aguardando posicionamento do freelancer para refazer o projeto.
Ao invés de refazer o trabalho ou desistir (o dinheiro retido na Workana seria restituído, pois o freelancer só recebe após a conclusão e aprovação do projeto), ele optou por escrever um texto dizendo, com uma explicação não aplicável ao caso, que eu estava errado por não ter gostado do trabalho.


Diante disso, respondi apenas que o trabalho estava reprovado por qualidade inadequada. Ficou evidente que o freelancer não tem estabilidade emocional para lidar com cliente insatisfeito:


 Como disse na resposta ao freelancer, se um cliente está insatisfeito, faço o possível para corrigir o erro ou compensá-lo. Jamais ficaria discutindo com o cliente para saber quem tem razão. Isso é pura perda de tempo. Se o prestador de serviço ou fornecedor tem razão ou não, pouco importa. O cliente irá considerar apenas a própria insatisfação. O ideal é remediar a situação na forma que for possível, e apenas isso.
Não obstante, o freelancer prosseguiu, me chamando de amador, ignorante e mau caráter:


 Amador, é claro que eu sou. Se não fosse, por que estaria contratando o serviço? Chamar um cliente de amador, ignorante e mau caráter apenas revela a própria falta de profissionalismo e capacidade.
E o freelancer corrobora sua instabilidade mental ao apelar para o vitimismo, passando a considerar que ele teria sido ameaçado:


Em complemento:


Por fim, diante da incapacidade do freelancer, iniciei moderação para cancelamento do projeto e restituição do valor dado em garantia.
O freelancer aceitou, mas não sem antes fazer comentários rudes, como se ele tivesse razão e o cliente não, talvez para afagar a própria arrogância. Para esse freelancer, o cliente nunca deve ter razão:


Infelizmente, por causa dessa primeira e péssima experiência, pelo menos por enquanto eu resolvi não contratar mais serviços pela Workana. Sei que devem existir profissionais de verdade no site, e não apenas amadores se fingindo de profissionais.

9 de jun. de 2019

E se eu Não Soubesse?


Vendedor de uma loja manifestou interesse em procurar outro trabalho enquanto estivesse em férias, informando que pediria demissão caso conseguisse.
De fato, ao retornar do período de férias, preencheu formulário com pedido de demissão, mas deixou o campo de aviso prévio em branco - disse que ficaria por conta da empresa decidir se o aviso prévio seria trabalhado ou indenizado.
Como eu era o representante da empresa, decidi que a demissão seria prontamente aceita e o aviso prévio seria descontado nas verbas rescisórias.
Qual a segurança eu tinha para essa decisão?
Durante o perído de férias do vendedor, o estabelecimento ao lado, que estava para alugar, foi preparado e abriu as portas. Tratava-se de uma loja no mesmo ramo da empresa onde o vendedor trabalhava. E lá estava ele, todo dia, atuando normalmente na nova loja, quando deveria estar em férias.
E não é só isso. Pesquisando a respeito na Junta Comercial, descobri que o vendedor era sócio da nova loja!
Ou seja, aproveitando-se das informações que tinha, abriu um estabelecimento concorrente (obviamente, estava se preparando a respeito antes de entrar em férias). Daí achou que poderia voltar das férias e cumprir aviso prévio trabalhando, aproveitando a situação para se apoderar de mais informações e podendo direcionar clientes para a sua loja ao lado, onde seriam atendidos por seus sócios. Ou, na pior das hipóteses, receberia uma indenização pela dispensa do aviso prévio.
Ciente do ardil, eu já vinha preparando documentação e fotos do vendedor atuando em seu novo estabelecimento, além de contar com testemunhas.
No dia de fazer a homologação da rescisão no sindicato (o fato ocorreu antes da lei 13.467/2017 e havia previsão expressa na Convenção Coletiva pela necessidade de homologação), o demissionário disse que não concordava com os termos rescisórios, pois não devia ser descontado o aviso prévio.
De sua parte, a representante do sindicato (Sindicomerciários) informou que não via problema algum no fato de ter o demissionário começado a trabalhar em outra empresa no período de férias, de modo que não aceitou homologar a rescisão.
Mas eu sabia que não era assim. Cheguei a, discretamente, gravar esse encontro com o celular.
Depois disso, para que a falta de homologação não implicasse em nulidade do pedido de demissão (como previsto na Convenção Coletiva e em acordo com jurisprudência), a empresa protocolou uma Ação Declaratória na justiça trabalhista, com apresentação dos fatos e todos os documentos que haviam sido apurados.
De sua parte, o ex-funcionário apresentou Reconvenção, pretendendo que o pedido de demissão fosse convertido em dispensa sem justa causa, pois teria sido "coagido".
No dia da audiência, fui como representante da empresa. A juíza questionou a pretensão do ex-funcionário, ao observar os fatos e documentos apresentados no processo. Porém, disse que a empresa estava errada em descontar o aviso prévio, de modo que abria-se a possibilidade de acordo.
Não aceitei.
Não fazia sentido em alguém, com provas que começou outro trabalho em período de férias, pudesse ainda exigir aviso prévio. Considerei, ainda, a Súmula 267 do TST (com destaque):

Súmula nº 276 do TST
AVISO PRÉVIO. RENÚNCIA PELO EMPREGADO.
O direito ao aviso prévio é irrenunciável pelo empregado. O pedido de dispensa de cumprimento não exime o empregador de pagar o respectivo valor, salvo comprovação de haver o prestador dos serviços obtido novo emprego.

Por fim, ao contrário do que a juíza havia dito em audiência, a Sentença foi totalmente favorável ao acolhimento da demissão por justa causa com desconto do aviso prévio.
O ex-funcionário recorreu, mas a decisão do Tribunal Regional do Trabalho manteve o decidido.



E se eu não soubesse que existia jurisprudência em favor do desconto do aviso prévio em tal situação? Qual teria sido minha postura quando questionado no sindicato, onde foi dito que o desconto era errado? E, pior ainda, quando foi dito em audiência, pela juíza, que não estava certo o desconto daquela maneira? Depois, em Sentença, analisando os detalhes do caso, a juíza pelo menos verificou que não era assim.
Mas o que teria acontecido com um empresário, nessa situação, questionado por todos os lados?
Por óbvio, teria se visto forçado a fazer um acordo, pagando o que não era devido.
Por ter conhecimento a respeito, e decidir levar o caso adiante, com todo o desgaste e incertezas de um processo trabalhista, não cedi diante da pretensão de um aproveitador.

8 de jun. de 2019

Terror no Banheiro


Todo sábado Anselmo mantinha a mesma tradição: após uma semana exaustiva de trabalho, dormia até a hora do almoço, passava boa parte da tarde jogando futebol com os amigos e, no começo da noite, após banho tomado, arrumado e perfumadinho, ia para a casa da namorada, Mirella, onde ficava vendo televisão enquanto esperava ela se preparar para que pudessem sair para jantar.
Anselmo, assim, já era meio que um membro da família. Tanto que às vezes só tocava o interfone pra avisar que estava subindo, pois a porta já estava aberta para ele. Depois alguém costumava aparecer para dar um “oi”, fosse Dona Matilde, mãe de Mirella, seu Adamastor, para conversar sobre os resultados da rodada do campeonato de futebol, ou a própria namorada, para um beijo rápido (mas isso raramente acontecia, ela detestava ser vista por ele sem estar devidamente arrumada).
Naquele sábado Dona Matilde o recebeu rapidamente para apresentar Carlos, o novo namoradinho de Priscila, irmã de Mirella. Pouco depois ela se retirou, para cuidar de outros afazeres, deixando os dois rapazes sozinhos na sala. Seu Adamastor encontrava-se em viagem e Anselmo sentou em sua poltrona favorita, quase que de frente para Carlos, que estava pudicamente retraído no sofá. Era visível que Carlos estava constrangido, rapaz tímido que era, ainda não acostumado ao ambiente e com medo de fazer qualquer coisa errada. Passaram a maior parte do tempo vendo televisão e Anselmo estava relaxado, pois sabia da fama das irmãs de levarem horas no ritual de se arrumar.
Algum tempo depois, ele começou a perceber que Carlos mantinha certa inquietação. Cruzava e descruzava as pernas, secava o suor da testa, segurava um braço firmemente no outro, ficava pálido. Ao perceber o olhar de curiosidade e preocupação que Anselmo lhe lançava, Carlos teve que admitir:
- Puxa... Acho que realmente não estou me sentindo bem...
Anselmo nada tinha contra o rapaz e, sendo praticamente um membro da casa, procurou confortá-lo, deixando-o bem à vontade:
- Não se preocupa não, cara! O banheiro fica ali no corredor, pode ir lá que elas ainda vão demorar bastante.
E lá foi Carlos, passos curtos e apressados, em total constrangimento. A casa era grande, com vários cômodos, mas o banheiro do corredor (na verdade um requintado lavabo) ficava próximo e foi rapidamente encontrado. Estava mesmo agradecido a Anselmo pela dica e com o fato de ninguém mais o ter visto adentrando o recinto.
O tempo foi passando... Cerca de quarenta minutos depois, Anselmo estava preocupado. O que teria acontecido com o rapaz? Será que o caso era realmente sério, algum problema que ele não havia revelado? Era impressão sua ou tinha acabado de ouvir um gemido, um lamento? Seria da televisão ou vinha do banheiro? Levantou-se e bateu levemente na porta do banheiro – “Olá? Tudo bem aí?”.
Não estava nada bem. Carlos fora acossado por uma feroz e implacável dor de barriga. Graças a Anselmo, pôde usar o banheiro em tempo de evitar maior constrangimento. No entanto, somente depois de consumado o ato, percebeu que não havia papel higiênico no lavabo. Também não havia bidê, era aquele um lavabo para visitas que, embora muito bem arrumado, decorado e cuidado, pouco era usado. O que fazer? Gritar pedindo papel estava fora de cogitação! Queria se livrar da situação o mais rapidamente possível, sem deixar pistas. Queria acabar com o problema logo e voltar para o sofá, ficar vendo televisão com postura calma, apenas esperando sua amada, como se nada tivesse ocorrido.
O que fazer? No desespero, muitas vezes, o homem perde a razão. Carlos viu a toalha de rosto, branquinha, pendurada ao lado da pia. Não pensou duas vezes, era preciso resolver o problema. Usou a toalha para se limpar da melhor forma possível. Em seguida, para se livrar da prova do crime, enrolou a mesma como que num formato de bola e... Atirou dentro do vaso!
Ao dar descarga, a toalha se recusava a descer com o resto, bloqueando o caminho como se sua intenção fosse deixar claro ao mundo a denunciação do criminoso. Como Carlos havia se preocupado em dar uma longa e generosa descarga, o que julgava suficiente para que todo aquele pesadelo fosse embora, o vaso começou a transbordar. Ele só percebeu isso quando era tarde demais, pois, tal era sua inquietação, havia fechado os olhos (meio que torcendo, meio que buscando forças) enquanto pressionava o botão salvador da descarga. Abriu os olhos em pânico ao ouvir a água transbordando.
Na verdade, não era mais água... Era um caldo escurecido e fétido, que agia como um monstro de vida própria a tomar o território. Contrastava com o azulejo branquinho do chão, apossava-se do tapete felpudo, que perdia sua cor pastel original imediatamente ao ser tocado pelo chorume maldito. Carlos se arrepiou todo ao constatar, com terror, o que agora acontecia.
Precisava pensar rápido! Felizmente, não se sabe o porquê, talvez por esquecimento da empregada, talvez por hábito familiar, ou talvez simplesmente por providência divina, havia uma vassoura encostada à parede que ficava atrás da porta. Carlos imediatamente dirigiu-se a ela, deixando terríveis pegadas da água amaldiçoada pelos azulejos ainda não dominados pelo negrume. Com a vassoura, pretendia forçar a toalha, a culpada de tudo, a aceitar seu destino de desaparecer para sempre da vida daquela bondosa família. Enfiou a vassoura no vaso e começou a socar freneticamente, num movimento contínuo e viril, como quem usa um pilão para transformar raiz de mandioca em farinha. Chomp, chomp, chomp! A toalha resistia... Chuck, chuck, chuck... Não podia desistir. Chomp-Chuck-Champ!!! Não conseguia! Fechava os olhos, usava toda a sua força, nada! Continuava tentando, agora mais forte ainda, deixando escapar um lamento, que vinha do fundo de sua alma: “Nnnaaaaauuuuuuummmmm!!!”. Aquilo realmente não podia estar acontecendo. Era um pesadelo, era só ele continuar de olhos fechados que acordaria a qualquer instante!


Foi nesse momento que Anselmo bateu à porta. Anselmo até ficou meio que surpreso ao ouvir o barulho da chave abrindo a fechadura, segundos depois. Mas a cena deplorável que vislumbrou lhe causou grande assombro: Carlos, de camisa e sem calças, todo marcado por manchas e pingos escuros, o cabelo escorrido de suor, o rosto consternado. Olhou para o chão, um verdadeiro lodaçal. O vaso revelava um cabo de vassoura, como se tivesse sido mortalmente atingido por uma lança a lhe perfurar as entranhas. E as paredes? Ah, as paredes... Dona Matilde era muito ciosa das coisas de sua casa. Tudo tinha que se bom, bonito, bem cuidado. O lavabo era revestido com papel de parede apresentando motivos florais em cores suaves, predominando o rosa. Mas agora estavam marcadas por pingos malditos, como se tivesse sido atacado por um fungo. Anselmo sentiu vergonha e desespero por Carlos:
- Meu deus, cara! O que você fez aqui? Ai, ai, ai...
Imediatamente Anselmo entrou e fechou a porta. Era necessário dar um jeito na situação. O cheiro era insuportável nesse momento, mas ele meio que nem sentia, estarrecido por todo aquele cenário de guerra. Ironicamente, sua atitude foi a mesma de Carlos: seguraram os dois o cabo da vassoura, tentando desentupir o vaso. Mas isso só espalhava ainda mais a água fétida, era um problema sem solução.
Para piorar tudo, as meninas tinham terminado de se arrumar e estavam, com Dona Matilde, procurando pelos dois na sala. Ouviram os barulhos estranhos que vinham do lavabo do corredor e foram bater à porta, com grande desconfiança. Dona Matilde foi à frente, as filhas observando atrás. O que poderia estar acontecendo? Dois homens juntos no banheiro? E o que significavam aqueles barulhos? Já demonstrando nervosismo por pensar o pior, Dona Matilde bateu rispidamente à porta:
- Ei, o que está acontecendo? Vocês estão aí? O que se passa????
- Espere, não podemos abrir agora! – foi a resposta de Anselmo. Carlos sequer conseguia falar ou pensar em qualquer coisa a essa altura.
- Abram já esta porta! Não estou entendendo! Quero saber o que está acontecendo já!
- Calma Dona Matilde! Espere um pouco, por favor. – e os dois continuavam tentando desbloquear o vaso sanitário, sem nenhum sucesso. A toalha ofendida realmente tinha se decidido por ganhar a questão.
- Que esperar coisa nenhuma! Abram já esta porta! – Dona Matilde ficou nervosa de vez – O que está acontecendo? Estão na minha casa! Que negócio é esse de dois homens no banheiro? Isso aqui é uma residência de família!!!
Silêncio...
- Vamos, abram já! – e Dona Matilde agora batia violentamente à porta. As filhas, em consternação, começavam a chorar, temendo que o pior estivesse por vir.
- Dona Matilde, não é nada disso que a senhora está pensando! Estamos resolvendo um problema... 
- Como assim? O que aconteceu? É droga?!? Como ousam trazer drogas pra minha casa? Saiam já daí!!!
Anselmo sabia que não podia sustentar a situação. O jeito era revelar tudo mesmo. Afinal de contas, a culpa era toda de Carlos, ele que assumisse a responsabilidade. Ele não queria mais saber de nada. Largou o cabo da vassoura, dirigiu-se à porta e abriu...
Dona Matilde soltou um grito de espanto ao se deparar com a cena. O banheiro imundo, um mal-cheiro insuportável. Os dois rapazes sujos, as paredes e o tapete irrecuperáveis... Carlos, de camisa e sem calça, segurando uma vassoura e ainda golpeando o vaso sanitário... Mirella e Priscila imediatamente aguçaram seus prantos. Aquilo realmente não podia estar acontecendo.
Mas Anselmo nunca pôde se explicar. Teve que aceitar a situação, ao ser expulso aos gritos, junto com Carlos, por Dona Matilde. A vizinhança acabou vindo à porta, o zelador apareceu para escoltar os rapazes, enfim, foi uma confusão só. Nunca mais pôde se dirigir a Mirella, acabou sendo conjuntamente condenado por um crime que não cometeu. Teve que optar por deixar os anos passarem e tentar esquecer. Nunca esqueceu.

* Baseado em história real, nomes fictícios - escrito em 30/08/2006, revisado em 08/06/2019.

17 de mar. de 2019

O Sétimo Cachorrinho


Entre outras atividades desenvolvidas por Rodolfo ao longo da vida, destacou-se certa vez uma “clínica” para cuidar de idosos. Funcionava assim: contatado por pessoas idosas ou seus parentes, ele e sua sócia iam às residências desempenhar as mais diversas atividades, como fazer compras, realizar serviços e manutenções simples. Na maior parte do tempo, contudo, o trabalho era bastante tranquilo, já que os clientes apenas necessitavam de uma companhia para conversar e acompanhá-los em pequenos passeios e banhos de sol.
Mas eis que uma das clientes, Dona Cecília, possuía uma cadelinha poodle. Certa vez, a poodle engravidou e Dona Cecília solicitou a Rodolfo que entrasse em contato com clínicas veterinárias da região e pesquisasse preços para realização do parto dos cãezinhos. Rodolfo constatou, assim, que o preço cobrado era geralmente muito caro – cerca de R$ 100 por filhote que sobrevivesse – e, sempre preparado para qualquer novo desafio, se ofereceu para acompanhar o parto cobrando apenas uma taxa módica de R$ 50, independentemente da quantidade de nascituros. Afinal, assistir o nascimento de cachorros deveria ser tarefa bem fácil – quantos não nascem e sobrevivem sem nenhum cuidado? Dada a confiança que a velha senhora depositava nele, a oferta foi prontamente aceita.
Chegado o dia do grande acontecimento, Rodolfo pegou dinheiro com Dona Cecília para cuidar dos preparativos: comprou toalhas, luvas, máscara cirúrgica, tesoura, algodão, gazes, talco, esparadrapo e até avental. Certamente a velha senhora ficaria orgulhosa de seu alto grau de profissionalismo!
Para realização do trabalho, Rodolfo instalou a poodle, cuidadosa e confortavelmente, num dos quartos da casa. Dona Cecília ficaria na sala, pois, sendo extremamente impressionável, não aguentaria acompanhar a cena (ou, nas palavras diretas de Rodolfo, “ela tinha nojo”). O combinado era que, à medida que os cachorrinhos fossem nascendo, Rodolfo narraria os fatos a Dona Cecília, informando o estado dos mesmos, tamanho, se tudo estava transcorrendo bem e os procedimentos que adotava.
Após tudo preparado, Rodolfo não teve que esperar muito para o parto ter início – de fato já era o momento, parecia até que a poodle vinha aguardando seu “médico” para entregar-lhe seus rebentos. Nasceu, assim, o primeiro cachorrinho, saudável. Rodolfo secou o pobre cuidadosamente, com a tesoura cortou a ponta do rabinho, para que se formasse o característico “pompom” quando o filhote crescesse, fez um curativo e colocou-o na cestinha, aguardando pelos irmãos. Veio o segundo, o terceiro... E o procedimento foi se repetindo, contando-se seis cãezinhos, todos saudáveis. Rodolfo narrava os fatos com o máximo profissionalismo a Dona Cecília, que, impressionada e feliz, ouvia tudo ansiosamente caminhando pela sala ao lado.
O parto transcorria tranquilo, até que nasceu o sétimo cachorrinho. Totalmente estranho, diferente dos demais, escuro, maior, em nada parecido com um poodle. Rodolfo foi tomado pela desconfiança - que aberração seria aquela? Um cachorro mutante? Sua imaginação fértil não chegou a conjecturar muito a respeito, pois estava cansado e o animalzinho, como os demais, necessitava de cuidados. Logo após secá-lo e constatar que o bichinho era saudável, Rodolfo pegou a tesoura para cortar a ponta do rabinho. Porém, desta vez, a tesoura recusava-se a fazer o trabalho, já cega pelos cortes anteriores. As lâminas não cortavam, as duas pontas dobravam-se sobre o rabo do já aflito cãozinho. Rodolfo continuava tentando, sem conseguir sucesso e percebendo que estava causando vários ferimentos no rabinho sem conseguir cortá-lo. Isso o deixou nervoso, fazendo com que tentasse ainda com mais afinco, repetidas vezes, sem sequer olhar o que estava fazendo. Foi assim que, num gesto forte e decisivo, porém com os olhos fechados, conseguiu realizar o corte. Ao abrir os olhos, todavia, grande foi o susto: não havia cortado apenas a ponta, mas todo o rabo do cachorro. Mais que isso: o corte foi tão eficaz e incisivo que não só extraiu todo o rabo, mas também parte do traseiro do pobre animal, que agora se contorcia em dores! O sangue começou a jorrar e Rodolfo suava frio. O que fazer?
Adaptabilidade, criatividade, capacidade de raciocínio, são atributos necessários às pessoas que conseguem resolver problemas difíceis e sair de situações complicadas. Rodolfo encarou o problema de frente. Primeiro, cuidou de omitir o nascimento do sétimo cachorrinho a Dona Cecília, disse apenas que, pelo visto, o parto tinha acabado e que ele estava fazendo uma avaliação dos nascituros. Enquanto isso, preparava um curativo no grave ferimento que havia causado ao estranho filhote: fez uma verdadeira frauda para o animal, no intuito de estancar o sangue. Sabia, porém, que não poderia apresentar um ser naquele estado a Dona Cecília, pois ela jamais entenderia! Nem mesmo ele tinha certeza se o filhote sobreviveria, já que perdera muito sangue e mostrava-se sem forças. O que fazer?
Rodolfo recolheu as gazes, algodão e toalhas sujas, deixando tudo pronto para que Dona Cecília tivesse uma boa visão de seu profissionalismo e ficasse feliz com seus novos animais de estimação. Sabendo que não poderia deixar ela ciente de seu fracasso com o sétimo cãozinho, decidiu tomar uma atitude drástica: colocou o pobre animal, já desfalecido, no bolso de sua jaqueta e fingiu ignorar esse “detalhe técnico” da operação realizada.
Feliz e entretida ao ver sua poodle com seis lindos filhotinhos, Dona Cecília pagou o apressado Rodolfo, que prontamente se retirou em direção à clínica veterinária mais próxima. Não queria ficar com peso na consciência e nem teria coragem de jogar o pobre e sofrido animal que trazia em seu bolso no lixo, ou matá-lo de uma vez. Explicar ao assombrado veterinário o que havia acontecido foi uma tarefa extremamente incômoda, até mesmo humilhante para ele. O veterinário decidiu aceitar o pobre animal e ver o que poderia fazer, mas cobrou R$ 50 de Rodolfo, justamente tudo que ele tinha ganho pelo parto. Se era esse o preço a pagar pelo desencargo de consciência, que fosse. Rodolfo pagou, deixou o animal e foi para casa em passo apressado, como se assim pudesse esquecer mais facilmente a fracassada experiência.
No dia seguinte, ao passar novamente pela clínica veterinária, foi informado da morte do cãozinho. Isso não lhe causou surpresa, afinal o pobre já estava semimorto. De fato, talvez tenha sido melhor assim. Afinal, não seria possível aparecer, depois, com um filhote naquele estado para Dona Cecília e confessar o ocorrido. Perderia a confiança da senhora, certamente ela não o contrataria mais e ainda falaria mal dele para todos os conhecidos. Além disso, se o animal deformado sobrevivesse, quem iria ficar com um cão sem rabo e com “meia bunda”? Se Rodolfo aceitasse essa tarefa, seria difícil se esquivar das perguntas e chacotas dos curiosos, teria que carregar esse fardo, uma prova de erro seu, por muitos e muitos anos. A morte do estranho filhote foi, assim, um alento.
Mas por que esse sétimo filhote era tão diferente de seus irmãos? Seu nascimento seria um presságio de que as coisas passariam a dar erradas, como de fato foi sua curta existência? Sempre inquieto e curioso, Rodolfo começou a juntar informações a respeito, conversando com o veterinário que havia recebido a infeliz criatura. Ficou sabendo que os cães, ao contrário do ser humano, podem realizar concepção dupla, isto é, uma cadela pode ter filhotes de diferentes cachorros num mesmo parto. Mais tarde, investigando na casa de Dona Cecília, constatou que a poodle havia cometido o ato, de forma escondida de sua dona, com o pastor alemão do vizinho, pela cerca do quintal. Isso explicava o nascimento de um filhote tão diferente dos demais – esses, sim, legítimos filhos de poodle, decorrentes de encontro devidamente escolhido e supervisionado por Dona Cecília.
E as falhas de Rodolfo nessa infeliz experiência com parto canino não terminaram por aí. Ficou sabendo também que, para a formação dos famosos pompons dos poodles, é necessário que o corte no rabinho dos nascituros seja realizado em sua terceira auréola. Em todos os seis filhotes sobreviventes, Rodolfo realizou o corte na segunda auréola! O destino reservava aos mesmos, no máximo, um tufo emaranhado de pêlos, jamais um pompom. Nas palavras de Rodolfo, seriam todos "cachorros zoados”.


Felizmente, com o passar do tempo, Rodolfo mudou novamente de trabalho e nunca mais viu Dona Cecília, que a esta altura já é morta. Também não chegou a ver o resultado de seu trabalho, não viu como os poodles (zoados) ficaram. Mas ele sabe que o caminho da sabedoria é não ter medo de errar. E isso é o que lhe importa.

* Baseado em história real - escrito em 07/05/2006, revisado em 16/03/2019.