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27 de nov de 2012

Apontamentos Sobre a Economia Japonesa


O sucesso do Japão nos mercados internacionais, com produtos competitivos em preço e qualidade (embora atualmente a competição por preço seja especialidade da China), trouxe a atenção do Ocidente para o modelo operacional japonês. Com o incentivo de associações empresariais norte-americanas, as técnicas gerenciais foram copiadas e adaptadas.
A ascensão japonesa na década de 1970 e sua consolidação nos anos 1980, não teve prosseguimento a partir dos anos 1990. Prejudicada pela apreciação do yen, pela crise financeira, pela estagnação econômica e pelo real ganho de competitividade das empresas do Ocidente, a estrutura industrial japonesa perdeu muito de sua atração no que se refere à busca de aperfeiçoamento gerencial.
A bolha estourou no início de 1990, com o mercado de ações perdendo a metade do seu valor em apenas alguns meses. Se os bancos e as companhias de seguros tivessem sido forçados a reduzir a valores realistas as suas ações e hipotecas, teria havido um colapso financeiro em massa. Em vez de organizar uma retirada administrada e controlada – semelhante àquela que os americanos fizeram com os empréstimos a países latino-americanos e as hipotecas -, o Japão está fingindo que os prejuízos nunca ocorreram. Na primavera de 1993, as compras maciças de ações e bônus pelo governo responderam por um terço do total  de compras na Bolsa de Valores de Tóquio. A linha oficial é que os mercados "devem" subir tão logo a economia se recupere, permitindo que o governo venda seus papéis e até tenha lucro. Mas isso nunca funcionou. A própria existência desses papéis em poder do governo limita o mercado. E cada dia que se passa sem que a realidade financeira seja encarada torna o problema menos tratável, mais controverso e politicamente corrosivo. (Drucker, 1999, p. 166)
Pode-se dizer que o desenvolvimento das técnicas gerenciais conhecidas como Gestão da Qualidade Total é fruto do processo de difusão de inovações das vantagens competitivas levadas a cabo pela economia japonesa em seu processo de recuperação, depois da II Guerra Mundial, e orientação para exportação.
De seu lado, o Ocidente teve sucesso na adaptação e desenvolvimento dessa técnicas, embora não sem registrar fracassos. E esse processo é fomentado ainda pelo fato de o desenvolvimento da tecnologia da informação e dos novos meios de comunicação e negócio (Internet, telecomunicações, software, biotecnologia) estar centrado no Ocidente. A década de 1990 marca, assim, uma resposta do Ocidente ao desafio japonês.
O nervosismo japonês com relação à inovação e internacionalização parece refletir um fracasso, não apenas de líderes empresariais específicos, mas também da abordagem japonesa à liderança como um todo. O culto ao consenso funcionava bem quando a economia japonesa estava crescendo 10% ao ano. Mas a economia estagnada está testando a capacidade dos chefes de tomar decisões difíceis. Eles precisam se livrar do excesso de funcionários (ou pelo menos aposentá-los precocemente) e resolver em que linha de negócios devem se concentrar. A concorrência de empresas ocidentais com rígida administração significa que as empresas japonesas precisam ser capazes de tomar decisões com rapidez. Agora que o Japão está se envolvendo cada vez mais com o resto do mundo, através de joint-ventures e operações no estrangeiro, os gerentes japoneses não podem mais se basear em um processo decisório que só é compreensível para seus colegas japoneses. (Micklethwait, Wooldridge, 1998, p. 217)
Não se deve desconsiderar os aspectos singulares da economia japonesa e sua política empresarial, não tão voltada para a maximização do lucro e consumo como ocorre nos EUA.
Se for feita a mesma pergunta a empresas japonesas [sobre prioridades em termos de atender seus vários públicos], a ordem de atendimento é inversa [à das empresas americanas] – empregados em primeiro lugar, clientes em segundo, e acionistas em terceiro. “As metas da companhia serão crescimento e longevidade, a lucratividade aparecendo num distante terceiro lugar na lista de prioridades. Os acionistas independentes não ocupam uma boa posição na lista de prioridades de atendimento da companhia [...] Os gerentes japoneses representam os interesses de toda a coalizão de acionistas e de não acionistas ou grupos isolados.” (Thurow, 1993, p. 160)
Esse quadro deve ser observado como um pacto social japonês, onde há defesa de um mercado fechado mesmo quando os produtos do exterior são mais baratos, onde é menor a propensão ao consumo (quando em comparação com as economias de outros países industrializados) e do fato das empresas japonesas registrarem lucros inferiores aos seus concorrentes estrangeiros.
A propensão do Japão a importar bens manufaturados de outros países desenvolvidos é um quarto da propensão dos Estados Unidos e um doze avos em relação à Alemanha. Dependendo do estudo, as importações japonesas situam-se de 25% a 45% abaixo do que seria de esperar considerando-se as circunstâncias do Japão. As diferenças de preços que não deveriam existir num mercado global existem. Os preços de produtos comerciáveis são 86% mais altos no Japão do que os preços desses mesmos produtos nos Estados Unidos. Teoricamente, pode-se ganhar muito dinheiro comprando-se produtos nos Estados Unidos e vendendo-os no Japão. Entretanto, no Japão, ninguém se aproveita dessas oportunidades de grandes lucros. Os estrangeiros que tentam fracassam. (Thurow, 1993, p. 136)
(...)
Grande parte do sucesso japonês face à crescente valorização do iene deve ser atribuída à sua disposição de aceitar menores lucros. Embora certamente tenham trabalhado para se tornar mais eficientes, companhias como a Matsushita e a Hitachi não hesitam em cortar os seus lucros pela metade, a fim de permanecerem competitivas. Os lucros da Matsushita em termos de percentuais de vendas caíram mais de 12% no início da década de setenta para 7 a 8% no final dos anos oitenta. Os lucros da Hitachi caíram da faixa de 11 a 12% para a faixa de 6 a 7%. (Thurow, 1993, p. 152)
(...)
Numa relação das 50 maiores companhias do mundo em função de seus lucros, 18 são americanas, apenas três são japonesas, quatro são alemãs e 11 são inglesas. Se analisarmos a taxa de retorno de equidade dos acionistas, as empresas americanas entre as 50 maiores recebem 13,3%, ou 50% mais do que os 9,1% recebidos pelas empresas japonesas entre as 50 maiores. Objetivamente, as empresas americanas são mais orientadas para o lucro do que as japonesas.
Da mesma forma, se relacionarmos os bancos mundiais pelo volume de seus ativos, nove dos dez maiores bancos do mundo são japoneses; nenhum é americano. Entretanto, se os bancos forem classificados segundo o retorno de equidade, seis dos dez mais lucrativos bancos do mundo são americanos; nenhum é japonês. (Thurow, 1993, p. 168)
Apesar disso, não se pode desconsiderar a capacidade histórica do Japão em superar dificuldades, nem seu alto grau de desenvolvimento econômico. No entanto, cabe indagar sobre a influência dessas características econômico-sociais do Japão no fato do país se encontrar em longo período de estagnação econômica e ainda sem perspectiva de reversão da situação.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:
DRUCKER, Peter. Administrando em Tempos de Grandes Mudanças. São Paulo: Pioneiras, 1999.
MICKLETHWALT, John, WOOLDRIDGE, Adrian. Os Bruxos da Administração. 3. ed. Rio de Janeiro: Campus, 1998.
THUROW, Lester C. Cabeça a Cabeça: a batalha econômica entre Japão, Europa e Estados Unidos. 2. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.

17 de nov de 2012

O Mau Exemplo da Fares Print


Hoje em dia está mais difícil conseguir uma boa impressora para utilizar com recarga de cartuchos. Primeiro porque muitos cartuchos vêm com um espaço mínimo para tinta. Segundo porque há modelos que vêm com chip que dificultam a recarga. Terceiro porque os softwares das impressoras instalam programas que atrasam a inicialização do computador e ficam mandando mensagens indesejáveis sobre nível de tinta e alerta para compra de novos cartuchos.
Ainda não consegui uma impressora que me deixasse plenamente satisfeito. Por isso, num momento em que precisava realizar impressões com certa urgência, e buscando novas soluções, deparei-me com o seguinte anúncio no site Mercado Livre:


O preço estava razoável. Essa impressora já vinha com o bulk ink instalado, conforme claramente indicado no anúncio. Fiz a compra e me prontifiquei a ir buscar o produto na loja.
No entanto, ao retirar o produto, tive uma surpresa: o bulk ink não vinha instalado. Como assim? Não era o que dizia o anúncio!
Por experiência própria, sei como é complicado instalar esse equipamento numa impressora. Em matéria de bulk ink, até hoje vi mais promessas que soluções. Logo questionei o vendedor (era uma loja pequena, aparentemente ele era sócio do negócio).
Ele respondeu que não entregavam o bulk ink montado, mas que isso era muito fácil de ser realizado e eu deveria pesquisar no Google! Também disse que, no fim de semana seguinte, ele mesmo iria pesquisar sobre como fazer a montagem e oferecer esse serviço ao cliente que quisesse. Daí, para não perder mais tempo, eu disse que iria tentar e voltaria se não conseguisse.
Devido à minha necessidade, resolvi aceitar o produto assim mesmo. Queria ver se essa instalação de bulk ink era realmente tão fácil. Caso contrário, eu poderia de imediato ter cancelado a compra, direito assegurado no Código de Defesa do Consumidor, já que o fornecedor não estava cumprindo com o que foi ofertado:
Art. 30. Toda informação ou publicidade, suficientemente precisa, veiculada por qualquer forma ou meio de comunicação com relação a produtos e serviços oferecidos ou apresentados, obriga o fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser celebrado.
(...)
Art. 35. Se o fornecedor de produtos ou serviços recusar cumprimento à oferta, apresentação ou publicidade, o consumidor poderá, alternativamente e à sua livre escolha:
I - exigir o cumprimento forçado da obrigação, nos termos da oferta, apresentação ou publicidade;
II - aceitar outro produto ou prestação de serviço equivalente;
III - rescindir o contrato, com direito à restituição de quantia eventualmente antecipada, monetariamente atualizada, e a perdas e danos.
O caso nitidamente caracterizava publicidade enganosa. Ainda conforme o Código de Defesa do Consumidor:
Art. 37. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva.
§ 1° É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços.
Além disso, esse vendedor comentou com outra pessoa no estabelecimento que o anúncio estava errado e que ele já havia dito que era para mudar a indicação de "bulk ink instalado".
Ao sair da loja, também me dei conta que eles não haviam me entregado a nota ou cupom fiscal. Confirmei isso ao verificar a embalagem quando cheguei em casa. E o interessante é que o anúncio dizia claramente:


Não entendo como alguém se propõe a anunciar com tal destaque que o produto é entregue com nota fiscal e, depois, se o cliente não falar nada, que fique por isso mesmo. Isso parece desonestidade.
Em todo caso, o site Mercado Livre pede que seja feita a qualificação das compras realizadas. Eu dei uma qualificação negativa mencionando apenas que eles não entregavam o produto em conformidade com o anunciado:
"Eles anunciam a venda do bulk ink instalado, mas não fazem a instalação, indicando que o cliente deve pesquisar na internet."
Nada relatei além da verdade. E nem mesmo mencionei a questão da sonegação.
Erros acontecem em qualquer empresa. E, quando erros acontecem, a preocupação deve ser resolvê-los e tomar as providências para que não se repitam mais.
O que faria uma empresa séria nesse caso? Pediria desculpa por ter feito um anúncio equivocado, providenciaria a correção e entraria um contato com o consumidor para resolução de eventual problema. Para isso, o próprio Mercado Livre concede um prazo para que se retifique a qualificação dada.
No entanto, a réplica à minha qualificação mostrou que não se tratava do caso. A resposta do fornecedor é exemplar na falta de profissionalismo no atendimento ao cliente:
"Este comprador JOSEMARCELO tem 60% de qualificações negativas. Infelizmente perfil como deste comprador deve ser banido do mercado livre por só atrapalhar empresas sérias. Uma pena."


Por óbvio que uma empresa séria não é aquela que oferece a entrega de um produto montado e não cumpre o que anunciou. Não é uma empresa séria aquela que anuncia que entrega "produto com nota fiscal" e não o faz (provavelmente só se o cliente exigir). E muito menos séria ainda é a empresa que, tendo cometido esses erros, coloca a culpa por uma qualificação negativa no próprio consumidor.
Além disso, o fato de eu não ter 100% de qualificações positivas no Mercado Livre não diz respeito à falta de pagamento ou qualquer conduta sem ética, mas à desistência de compras onde o valor do frete não compensava a concretização do pedido.
Enfatize-se que, em minha informação ao Mercado Livre, apenas relatei uma irregularidade (eles anunciavam a entrega do bulk ink montado e não cumpriam o estabelecido). Eu não disse que eles faziam isso com má intenção, com o intuito de enganar. Deixei margem para que respondessem corrigindo o problema. Não fiz ataque pessoal.
Assim, ao proceder dessa forma, a Fares Print, mais uma vez, atentou contra a Código de Defesa do Consumidor, onde se verifica:
Art. 39. É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras práticas abusivas:
(...)
VII - repassar informação depreciativa, referente a ato praticado pelo consumidor no exercício de seus direitos;
Claro está, portanto, que essa empresa precisa rever urgentemente suas práticas no que diz respeito ao atendimento ao consumidor, pois visivelmente não está preparada para tal.
Independentemente disso, instalei a impressora adquirida (marca Epson, modelo T25) e usei a tinta dos cartuchos originais até acabar - isso não levou muito tempo, pois os cartuchos vinham com pouca tinta.
Finalizadas minhas impressões, dediquei-me ao trabalho de instalar o bulk ink. Comecei a pesquisar vídeos na internet, conforme recomendado pelo vendedor. Encontrei maneiras distintas de fazê-lo e até gente não recomendando a instalação de bulk ink nessa impressora. Mas, no final, não sem certa dificuldade e não achando nada fácil, consegui fazer a instalação.
Porém, não consegui usar a Epson T25 com bulk ink. O problema é que essa impressora vem com um chip para confirmar a recarga dos catuchos. Ou seja, não basta você recarregar um cartucho e colocar no lugar, é necessário reiniciar, resetar, o chip. Só então a impressora reconheceria o cartucho como cheio.
Felizmente, o kit do bulk ink vinha com a placa para o chip, com botão de reinicializar e até mesmo com uma pequena bateria. Fiz tudo como indicado na internet, mas a impressora não reconhecia os cartuchos cheios. Continuava com a indicação de falta de tinta. E nada de imprimir.
No final, considerei que o produto era ruim, que não era mesmo adequado para usar com bulk ink e nem se prestava a recarga de cartucho. Resolvi me desfazer da impressora, enviando o equipamento para reciclagem. Considerei o caso como uma experiência ruim, de uma compra onde eu deveria ter pesquisado melhor, mas não o fiz diante da urgência do momento. Serviria como aprendizado.
Eu poderia, naturalmente, ter procurado o Procon ou, melhor ainda, o Juizado Especial Cível, requerendo reparação material e por danos morais contra a empresa Fares Print. No entanto, por mais razão que eu tivesse, isso tomaria tempo de outras atividades importantes.
Tudo ficaria por isso mesmo. Porém, quase dois meses depois do ocorrido, comecei a receber e-mails da Fares Print solicitando que eu alterasse para positiva a qualificação que fiz no Mercado Livre.
Não me parece nada ético uma empresa mandar mensagens a (ex)clientes pedindo que mudem uma qualificação negativa, sem ter esclarecido ou tomado providência a respeito da causa dessa insatisfação. Mais ainda quando defendem o "banimento" do cliente do Mercado Livre (até hoje, não encontrei fornecedor que banisse pagamento aprovado em meu cartão de crédito).
Querer que o cliente mude uma qualificação, para se favorecer disso, me parece coação. Eu registraria uma piora na qualificação, se isso fosse possível.
Então, verifiquei como está a qualificação dessa empresa no Mercado Livre. O resultado estava muito bom, com 88% das vendas concretizadas e 99% de qualificações positivas. Impressionante, não é?
Em seguida, analisei como eles agem no caso de qualificações negativas. Vejamos alguns exemplos:
18/08/2012
CONSUMIDOR  - "Fiz a compra dia 07/08/2012 e ate agora 18/08/2012 o vendedor nao entro em contato dizendo se vai envia o produto nem mandado o numero de rastreio do correios. "
RÉPLICA - "Vc esta de má fé. Veja nossas 2300 qualificações positivas. Objeto ja postado. Usuário não sabe usar o mercado livre. Uma pena."
11/05/2012
CONSUMIDOR - "Eu comprei uma impressora com bulk ink e não com cartucho recaregáve. Alem de tudo veio com o vermelho queimado. Pra completar sem nota fiscal."
RÉPLICA - "A impressora é com cartucho recarregável. Vamos corrigir o anúncio. Toda impressora nossa sai com Nota Fiscal da empresa. Vc poderia ter entrado em contato conosco. Não recebemos um só e-mail do Senhor. Solicito vc revisar a sua qualificação."
20/02/2012
CONSUMIDOR - "comprei porque era de SP e podia retirar. depois mudou o cadastro pro ES, pedi tel da loja aqui de SP se negou a dar e foi grosso, muito suspeito, nao recomendo"
RÉPLICA - "Minha loja sempre foi em Vitoria/ES. Vc nao conhece as regras do mercado livre. Suas qualificações Sao todas negativas. Vai ser banido do mercado livre."
02/12/2011
CONSUMIDOR - "O envio do produto demorou muito.Recomendo a compra pois o preço e produto são bons, porém o tempo e desentendimento não me agradaram."
RÉPLICA - "Estarei notificando o mercado livre sobre sua conduta. Vc esta prejudicando uma empresa seria rapaz."
17/10/2011
CONSUMIDOR - "O Bulk não veio montado e não enviou a nota fiscal. Preciso urgentemene da nota!"
RÉPLICA - "Foi com NF, vc esperatamente me obrigou a pagar R$ 150,00 e me qualifica negativamnte. Não recomendo niguém vender para este cidadão."
Pelo visto, não foi a primeira vez que eles não entregaram produto em conformidade com o anunciado e não emitiram a nota fiscal.
Mas o que mais me surpreende é a atitude de arrogância e ameaça contra o cliente que reclama. Definitivamente, uma empresa séria jamais adotaria esse tipo de atitude.  
Fica a dica para quem fizer compras no Mercado Livre: observe os comentários negativos que o fornecedor recebe e veja como ele trata os clientes na resolução dos problemas. É isso que diferencia uma empresa séria de outras.
Ao que parece, por receber muitas qualificações positivas (sinal que eles realmente entregam o que anunciam, embora nem sempre exatamente como anunciam), a Fares Print adotou uma postura de soberba, desqualificando quem não ficou satisfeito com o produto/ serviço. Isso não pode estar correto!
Fui verificar, então, como estava o anúncio da impressora que comprei. Teriam corrigido a informação que a impressora não vem com bulk ink montado?
De fato sim! E exatamente no mesmo dia que fiz a qualificação negativa. Sinal que reconheceram o erro que indiquei. Interessante que, mesmo assim, não admitiram que erraram e me desqualificaram, como fazem com os demais consumidores insatisfeitos.
O novo anúncio, informava: "O bulk ink nas impressoras Epson não vão montados para evitar vazamentos no transporte." (sic)


Bom, para não ter vazamento, bastaria montar o bulk ink e não colocar a tinta, deixando o cliente fazer isso ao receber o produto. Nenhum mistério a respeito.
Porém, essa informação está na parte inferior do anúncio. No topo da tela, onde eles anunciam a mesma impressora, mas como preço novo (e espero que reajustado para que entreguem a nota fiscal), consta o seguinte:


Continuam anunciando o produto com "bulk ink instalado"! Seria isso incompetência ou má fé mesmo?
O fato é que não interessa se, na parte inferior do anúncio, eles esclarecem que o bulk ink não vai instalado. Continuam induzindo o consumidor a erro. Continuam fazendo propaganda enganosa, vedada pelo Código de Defesa do Consumidor:
 Art. 37. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva.
§ 1° É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços.
E, existindo dúvida no anúncio, deve prevalecer a interpretação mais favorável ao consumidor, conforme respalda o referido Código:
Art. 47. As cláusulas contratuais serão interpretadas de maneira mais favorável ao consumidor.
Em meu lugar, muitos já teriam acionado a justiça e teriam boa chance de conseguir reparação. Não teriam nada a perder, senão tempo e paciência, já que não precisariam pagar taxas ou contratar advogado se acionassem o Juizado Especial Cível. Basta que o pedido de reparação por danos materiais e morais não seja superior a 20 salários mínimos, em conformidade com a Lei 9.099/95:
Art. 9º Nas causas de valor até vinte salários mínimos, as partes comparecerão pessoalmente, podendo ser assistidas por advogado; nas de valor superior, a assistência é obrigatória.
(...)
Art. 54. O acesso ao Juizado Especial independerá, em primeiro grau de jurisdição, do pagamento de custas, taxas ou despesas.
Conforme já dito, preferi considerar o caso como uma experiência negativa de compra. Porém, caso a Fares Print continue me enviando e-mails para que eu mude a qualificação dada, o que entendo se tratar de coação, terei que reavaliar a respeito.
De qualquer forma, a surpresa que tive com a forma de atuação dessa empresa, bem como dos erros verificados em seus anúncios, me motivou a escrever este texto.
Tive o cuidado de deixar tudo fundamentado para embasar quem precisar dessas informações ao lidar com caso parecido - seja com o mesmo fornecedor ou não.
Também indico esse caso para reflexão das empresas que procuram uma atitude de seriedade no atendimento ao cliente.

9 de nov de 2012

Algo Sobre a Cultura Laboral no Japão


Após a II Guerra Mundial, por pressão da força de ocupação americana, foram instituídas leis trabalhistas rígidas no Japão dificultando a demissão de funcionários e estabelecendo o emprego vitalício (prática já conhecida na sociedade japonesa desde o início de sua industrialização). O objetivo das medidas era reduzir ao máximo o desemprego, evitando maior caos social no processo de reconstrução do país (e, talvez, também melhorar a imagem dos americanos frente à população).


Contudo, é necessário frisar que o sistema japonês de evolução salarial por senioridade (trabalhador mais antigo, em mesma função, recebe mais que trabalhador mais recentemente contratado), o incentivo à resolução de problemas em equipe (os outrora famosos "Círculos de Controle de Qualidade") e o papel ativo da companhia na vida social do indivíduo, não constituem necessariamente um sistema harmônico. Antes, o Japão é caracterizado, em comparação com os ideais do ocidente, como uma sociedade rígida e hierarquizada, limitadora das aptidões individuais, repulsiva à iniciativa e criatividade e discriminatória em relação às mulheres e estrangeiros.
(...) As pressões de uma sociedade que enfatiza a harmonia acima de tudo podem pesar seriamente sobre indivíduos isolados, especialmente sobre os talentosos (...) No caso do Japão, a maior parte dos danos permanece invisível. Há perda de criatividade, sufocamento dos sentimentos da pessoa, o tributo pago às mediocridades altamente colocadas, a brecha que às vezes se abre sinistramente entre o que os japoneses chamam de tatemae, ou aparência desejada das coisas, e as honne, as condições reais, o pensamento real, os motivos que cada um realmente tem. Vivendo e trabalhando no Japão, o indivíduo se sente às vezes como um ator num drama estilizado Kabuki, encenando dentro de uma estufa. No fim, mesmo o estrangeiro, ainda que bem gradualmente, acaba por viver o papel. Não há maneira de escapar. (Gibney, 1982, p. 28)
Em relação ao emprego vitalício, sua prática é contestável, nunca chegando a ser totalmente difundida entre as empresas e regulamentada formalmente, sendo produto de consenso entre lealdade à empresa em troca de garantia de emprego.
Convém frisar, todavia, que somente uns 30% da força-de-trabalho japonesa – aqueles empregados nas grandes corporações – se beneficiam [do sistema de senioridade] (...) e 98% das empresas japonesas não oferecem "emprego por toda vida". (Rattner, 1987, p. 25)
Por outro lado, no Japão, a mudança de emprego é desestimulada. Primeiro porque a senioridade é contada a partir da data de entrada no emprego. Normalmente, quem sai de um trabalho e consegue emprego em outra empresa começa com o mais baixo salário. Segundo porque a prática de mudança de organização é socialmente mal vista, pois quem deixa um emprego é considerado como pessoa pouco confiável.
Não é de se esperar que dedicar toda a vida profissional a uma única organização seja suficiente para satisfazer as inspirações pessoais de determinada profissão, o que acaba tolhendo a criatividade e iniciativa individual, gerando indivíduos oprimidos e frustrados.
Em 1995, pela primeira vez, os japoneses questionados em uma pesquisa anual realizada pelo Ministério do Trabalho, declararam que a satisfação profissional era mais importante do que a lealdade à empresa (...) Trabalhadores de meio expediente e temporários já constituem  mais de um quarto da força de trabalho japonesa. (Micklethwait, Wooldridge, 1998, p. 157)
Também é questionável a informação que nas corporações japonesas, apesar de inseridas numa sociedade hierárquica e tradicional, as decisões sejam balizadas pelo consenso em grupo:
Quanto ao processo decisório baseado em consenso, na realidade, alguém toma a iniciativa e os outros endossam sua posição ou proposta. Embora considerem que todos participam do processo em pé de igualdade, de fato poucos ousariam manifestar uma opinião minoritária ou discordante. A necessidade de se preservar a harmonia do grupo leva indivíduos a ocultar sua “honne” ou sentimento verdadeiro, revelando apenas a máscara ou "tatemae”, alinhado com os outros. (Rattner, 1987, p. 27)
Assim, contrapõe-se a ideia arraigada que as práticas japonesas de gestão possam ser transplantadas para outras economias e que, por si só, explicariam o sucesso do país nas décadas de 1970 e 80.
Na verdade, devemos compreender esse modelo de relação de trabalho como fruto das características históricas e culturais próprias da sociedade japonesa, em sua adaptação ao sistema capitalista, do que como um paradigma para referência em administração (como se tentou fazer quando a economia japonesa estava no auge).
O modelo japonês, sem levar em consideração esses aspectos, somente resultaria em efetividade em alguns processos técnicos e operacionais, não sendo correto supor que suas técnicas de gestão sejam de fato mais evoluídas ou que possam ser absorvidas pelo ocidente sem necessário questionamento e adaptação.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:
GIBNEY, Frank. Milagre Bem Planejado. São Paulo: Record, 1982.
MICKLETHWALT, John, WOOLDRIDGE, Adrian. Os Bruxos da Administração. 3. ed. Rio de Janeiro: Campus, 1998.
RATTNER, Henrique. Política Industrial no Japão: tendências e perspectivas. 1987. 33 p. Texto de discussão 01/87, Faculdade de Economia e Administração, Universidade de São Paulo.