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1 de jun de 2014

As Portas da Percepção

"As Portas da Percepção" e "Céu e Inferno" consistem de ensaios onde Aldous Huxley trata de sua experiência com o uso de drogas, na busca por uma maior percepção, posto que o autor apresentava certo inconformismo com as limitações do corpo humano.
Na introdução do livro que reúne esses ensaios, Manuel da Costa Pinto adverte que essas experiências dizem respeito ao uso da mescalina, que não causaria alucinações, mas uma espécie de alargamento da percepção do mundo.
Interessante notar que essa experiência de Huxley com a mescalina, droga elaborada a partir de um cacto considerado sagrado por certos índios americanos, serviu de inspiração a Jim Morrison na criação da banda de rock The Doors (As Portas).
Huxley descreve que, ao conhecer um pesquisador, se propôs a servir de cobaia e tomar 4 decigramas de mescalina, em meio copo d'água, para observar quais seriam os resultados.


Do efeito da droga, ele relata que, com certa decepção, não foi tomado de visões, como esperava. O que aconteceu foi que teve uma diferente percepção da realidade, como destaca nas passagens seguintes:
A modificação que realmente ocorreu nesse mundo nada teve de revolucionária. Meia hora depois de ingerir a droga, comecei a perceber um lento bailado de luzes douradas. Pouco depois surgiram imponentes superfícies rubras que cresciam e se avolumavam a partir de brilhantes nódulos de energia a assumir continuamente as mais variadas formas. De outra feita, ao fechar os olhos, deparava-me com um complexo de estruturas cinzentas, de dentro das quais brotavam, incessantemente, pálidas esferas azuladas que se iam materializando e, à medida que o faziam, deslizavam silenciosamente para cima e fugiam de cena. Mas em tempo algum apareceram faces ou formas de homens ou animais. Nada de paisagens, espaços abissais, mágico crescimento e metamorfose de edificações, nada que lembrasse, por remoto que fosse, um drama ou uma parábola. O outro mundo ao qual a mescalina me conduzira não era o mundo das visões; ele existia naquilo que eu podia ver com meus olhos abertos. A grande transformação se dava no reino dos fatos objetivos. O que tinha acontecido a meu universo subjetivo era coisa que, relativamente, pouco importava.
(...) O que mais ressaltava era a constatação de que as relações espaciais tinham perdido muito do seu valor e de que minha mente tomava contato com o mundo exterior em termos de outras dimensões que não as de espaço. Em situações normais o olho se preocupa com problemas tais como Onde? — A que distância? — Como se situa em relação a tal coisa? Durante a experiência com a mescalina, as perguntas tácitas a que a visão responde são de outra ordem. Lugar e distância deixam de ter muito interesse. A mente elabora a compreensão das coisas em termos de intensidade de existência, profundidade de importância, relações dentro de um determinado padrão. Eu olhava para os livros, mas não me preocupava, em absoluto, com suas posições no espaço. O que notava, o que se impunha por si mesmo à minha mente, era o fato de que todos eles brilhavam com uma luz viva e que, em alguns, o resplendor era mais intenso que em outros. Nesse instante, a posição e as três dimensões eram questões de menos. Não, evidentemente, que a noção de espaço houvesse sido abolida. Quando me levantei e pus-me a andar, eu o fiz com toda a naturalidade, sem erros de apreciação sobre a posição dos objetos.
O espaço ainda estava ali; mas havia perdido sua primazia. A mente se preocupava, mais do que tudo, não com medidas e lugares, e sim com a existência e o significado.
Desse modo, Huxley teve uma experiência sobre a percepção da realidade. Ele destaca que o cérebro funcionaria como um filtro da realidade, a limitar a nossa percepção, como forma de nos precaver de um excesso de informações que tornaria difícil qualquer interpretação do mundo, diante de nossas limitações físicas.
Refletindo sobre minha experiência, vejo-me levado a concordar com o eminente filósofo de Cambridge, Dr. C. D. Broad, "que será bom considerarmos, muito mais seriamente do que até então temos feito, o tipo de teoria estabelecida por Bergson, com relação à memória e ao senso de percepção. Segundo ela, a função do cérebro e do sistema nervoso é, principalmente, eliminativa e não produtiva. Cada um de nós é capaz de lembrar-se, a qualquer momento, de tudo o que já ocorreu conosco, bem como de se aperceber de tudo o que está acontecendo em qualquer parte do universo. A função do cérebro e do sistema nervoso é proteger-nos, impedindo que sejamos esmagados e confundidos por essa massa de conhecimentos, na sua maioria inúteis e sem importância, eliminando muita coisa que, de outro modo, deveríamos perceber ou recordar constantemente, e deixando passar apenas aquelas poucas sensações selecionadas que, provavelmente, terão utilidade na prática".
Essa experiência permite que o autor faça uma interessante reflexão sobre a tendência dos seres humanos em buscar respostas nos seus pensamentos, na realidade que interpretam, em seu mundo interior, até mesmo como forma de se protegerem da severidade, da austeridade, dos dilemas, que a realidade impõe. Claro que, por outro lado, essa tendência humana pode resultar nas mais diversas implicações, na medida em que a realidade, mesmo posta, acaba sendo suplantada por crenças e percepções individuais.
Conclui-se perfeitamente, à luz dos documentos e rituais religiosos, bem como dos monumentos da poesia e das artes plásticas que chegaram até nós, que, na maioria das épocas e dos lugares, os homens têm atribuído maior importância a suas visões interiores que às coisas objetivas que conhecem. Têm julgado que o que vêem, quando de olhos cerrados, possui maior importância espiritual que o visto à luz do dia. Qual a razão para isso? A familiaridade gera indiferença, e o problema da sobrevivência é de uma premência que vai da tediosa rotina à tortura. É para o mundo exterior que abrimos os olhos todas as manhãs, é nele que, de bom ou de mau grado, temos de procurar viver. No mundo interior não há trabalho nem monotonia. Visitamo-lo apenas em sonhos e devaneios, e sua singularidade é tal que nunca encontramos o mesmo mundo em duas ocasiões sucessivas. Que há, pois, de espantoso em preferirem os seres humanos, via de regra, olhar para dentro de si mesmos, em sua busca do sublime?
Em resumo, e considerando outros casos, o autor verificou os seguintes sintomas:
1. A capacidade de lembrar-se e de raciocinar corretamente não sofre redução perceptível. (Ouvindo os registros de minha conversação, quando sob o efeito da droga, nada me leva a concluir que estivesse mais estulto do que sou sob condições normais.)
2. As impressões visuais tornam-se grandemente intensificadas e o olho recupera um pouco da inocente percepção da infância, quando o senso não se achava direta e automaticamente subordinado à concepção. O interesse pelo espaço diminui e a importância do tempo cai quase a zero.
3. Embora o intelecto nada sofra e a percepção seja grandemente aumentada, a vontade experimenta uma grande transformação para pior. O indivíduo que ingere mescalina não vê razão para fazer seja o que for, e considera profundamente injustificável a maioria das causas que, em circunstâncias normais, seriam suficientes para motivá-lo e fazê-lo agir. Elas não o preocuparão, pela simples razão de ter ele melhores coisas em que pensar.
4. Essas melhores coisas podem ser experimentadas (tal qual se deu comigo) lá fora, aqui dentro ou em ambos os mundos — o interior e o exterior, simultânea ou sucessivamente. Que elas são melhores, isso parece axiomático a quem quer que tome mescalina, desde que possua um fígado são e uma mente isenta de angústias.
Huxley observa que a mescalina traz resultados diferentes conforme as características de cada indivíduo, como ele comenta um tanto quanto ironicamente:
Os indivíduos de imaginação mais fértil são, em sua maioria, transformados em visionários pela mescalina. Alguns deles - e seu número talvez seja bem maior do que geralmente se admite - não necessitam de transformação; são permanentemente visionários.
Outra questão interessante abordada pelo autor diz respeito à comparação que ele faz com outras práticas, como a ingestão controlada de dióxido de carbono e seus efeitos para apaziguar os limites que o cérebro imporia à percepção da realidade. Ele compara esses resultados também com práticas de cunho religioso e místico, como jejum, mantras, flagelos etc. Seriam aspectos que causariam visões de certa forma análogas às experiências obtidas com drogas como a mescalina. Além disso, ele observa que existem aspectos fisiológicos e psicológicos de cada indivíduo que podem trazem diferentes percepções quanto a essas experiências.
Huxley não faz exatamente uma apologia ao uso de drogas, na verdade ele considera a mescalina uma droga superior a outras (como maconha, cocaína e LSD), porém, ainda não a considera a substância ideal para intensificar experiências pessoais. De qualquer modo, o autor identifica uma certa hipocrisia em não se discutir essa possibilidade do uso de substâncias químicas como forma de potencializar uma maior compreensão, uma maior percepção, seja do mundo, seja de si mesmo.

REFERÊNCIA CONSULTADA:
HUXLEY, Aldous. As Portas da Percepção & Céu e Inferno. Disponível em: <http://www.planonacionaldeleitura.gov.pt/clubedeleituras/upload/e_livros/clle000124.pdf>. Acesso em: 06 mai. 2014.

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