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15 de mai de 2013

Por Uma Visão Mais Ampla da Contabilidade Gerencial


O uso adequado de ferramentas de controle gerencial favorece uma gestão organizacional mais profissionalizada e minimiza os riscos do negócio (Gonzaga et al., 2010), possibilitando às empresas sobreviverem em ambientes competitivos e alcançarem melhores resultados (Guerreiro e Frezatti, 2004).
Apesar de existir uma forte tendência para a "homogeneização global" das práticas contábeis, seja por influência do movimento de globalização econômica, da profissionalização da contabilidade e da atuação de empresas de consultoria (Granlund et al., 1998 apud Ma e Tayles, 2009), a pesquisa contábil não tem apresentado impacto significativo na prática empresarial (Guerreiro e Frezatti, 2004). Ferramentas tradicionais de contabilidade gerencial ainda são largamente utilizadas (Burns et al., 1999; Garg et al., 2003).
Embora exista concordância quanto às limitações das ferramentas contábeis tradicionais, as organizações se mostram relutantes em adotar novas técnicas, relatando dificuldades como: particularidades de sua  realidade econômica, falta de recursos internos, problemas inerentes a mudanças e falta de interesse da gerência (Garg et al., 2003). Não obstante, pesquisas indicam que as empresas fazem uso de mais de uma ferramenta gerencial para atender suas necessidades de controle, mas algumas ferramentas são pouco utilizadas, como custeio baseado em atividades, custeio meta, teoria das restrições e valor econômico adicionado (Gonzaga et al., 2010).
A escolha de ferramentas de contabilidade gerencial é determinada pelas necessidades gerenciais internas da organização e pela influência de aspectos organizacionais, comportamentais, econômicos e sociais (Gong e Tset, 2009). Aspectos contextuais, como ambiente, estratégia, tecnologia, estrutura organizacional, tamanho e cultura, influenciam no desempenho das organizações (Chenhall, 2007, apud Gong e Tset, 2009).
A esse respeito, a Teoria da Contingência indica que não existe um sistema de controle gerencial que seja igualmente útil a diferentes empresas, cabendo então indicar quais os fatores que podem influenciar na adoção das ferramentas selecionadas (Gonzaga et al., 2010; Donaldson, 2001, apud Gong e Tset, 2009). Porém, existem críticas sobre a falta da explicação da Teoria da Contingência quanto aos motivos da sub-utilização de práticas de contabilidade gerencial nas organizações (Gong e Tset, 2009), bem como diante das dificuldades de sua aplicação no ambiente de contínua mudança e interações onde atuam as organizações (Selto et al., 1995, apud Covaleski et al., 1996).
Guerreiro e Frezatti (2004) observam que novos modelos de contabilidade gerencial, para se tornarem práticas efetivamente adotadas pelas organizações, precisam ser institucionalizados, ou seja, convertidos em hábitos e rotinas dentro das organizações. E O'Neill et al. (1998, apud Ma e Tayles, 2009) registra que empresas em ambiente de incerteza tendem a copiar modelos de operação de outras empresas, particularmente das que têm sucesso e reconhecimento (boa reputação).
Diante disso, a Teoria Neo-Institucional identifica que as organizações escolhem determinadas práticas em um contexto de legitimação, não necessariamente por razões econômicas (Oyadomari et al., 2008). Busca-se uma ligação entre o contexto onde a organização se insere e suas práticas, procurando identificar como as organizações respondem e processam mudanças institucionais, como elas interagem enquanto integrantes de uma população ou setor econômico (Ma e Tayles, 2009; Dougherty, 1994, DiMaggio et al., 1983, Meyer et al., 1997, apud Ma e Tayles., 2009). Tal contexto auxilia a compreensão dos motivos que levam à manutenção de determinadas práticas de contabilidade gerencial, mesmo quando não são as mais apropriadas para uma organização (Gong e Tset, 2009). Nesse sentido, a adoção das técnicas de contabilidade gerencial é influenciada pelas relações sociais no ambiente onde as organizações se inserem (Covaleski et al., 1996).
Vargas (2002 apud Villaschi e Barros, 2004) verificou que a proximidade e a interação entre diferentes firmas e outros atores institucionais é importante para potencializar a inovação e a difusão de conhecimentos. Isso não significa, todavia, que a influência de fatores externos implique necessariamente na adoção de práticas de contabilidade gerencial similares entre as empresas de determinada localização, pois interesses e valores internos de cada organização também são relevantes (Ma e Tayles, 2009). Guerreiro e Frezatti (2004) indicam, ainda, que podem existir conflitos e resistências dentro da própria organização, sobre a adoção de novos sistemas contábeis, bem como a contabilidade pode simplesmente não ser a forma predominante de controle organizacional.
Observa-se, portanto, muitos fatores e explicações possíveis quanto ao baixo grau de aplicação de novas técnicas de contabilidade gerencial na prática organizacional. Por exemplo, Guerreiro e Frezatti (2004), citam fatores inconscientes na psicologia humana e na cultura organizacional.
De qualquer modo, antes de constituir um estorvo, a existência de diferentes perspectivas teóricas pode ajudar a criar explicações mais completas e válidas sobre o uso da contabilidade gerencial nas organizações (Ma e Tayles, 2009; Gong e Tset, 2009). Teorias diferentes não devem ser vistas como necessariamente conflitantes, mas sim como complementares, para compreensão da realidade (Covaleski et. al 1996; Morgan, 1980, apud Gong e Tset, 2009). Diferentes teorias podem ser aplicadas conjuntamente para investigar questões de pesquisa, desde que não sejam consideras como parte de uma única e nova teoria, pois isso implicaria em alterar seus pressupostos, com perda de sua singularidade (Gong e Tset, 2009; Donaldson 1995 apud Gong e Tset, 2009).

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

BURNS, John, EZZAMEL, Mahmoud, SCAPENS, Robert. Management accounting change in the UK. Management Accountants, vol. 77, pp. 28-30, 1999.

Covaleski, Mark A., DIRSMITH, Mark W., SAMUEL, Sajay. Managerial accounting research: the contributions of organizational and sociological theories. Journal of Management Accounting Research, v. 8, 1996.

GARG, Ashish, DEBASHIHS, Ghosh, HUDICK, James, NOWACKI, Chuen. Roles and practices in management accounting today: results from de 2003 IMA-E&Y survey. Strategic Finance, n. 85, jul. 2003. Disponível em: <http://gscy12sec2.net76.net/T2.3/Ch01_Mgt_Acctg_Today_2003-%20Cost%20Management-%20ENG.pdf>. Acesso em: 08 dez. 2011.

GONG, Maleen Z., TSET, Michael S. C. Pick, mix or match? A discussion of theories for management accounting research. Journal of Accounting, Business & Management, v. 16, n. 2, pp. 54-66, 2009.

GONZAGA, Rosimeire Pimentel; DA LUZ, Antônio T. Mattos; GUIMARÃES, Thiago Neiva; VALERIO JUNIOR, Valdir Brunelli. Associação entre práticas de contabilidade gerencial e tamanho das empresas: um estudo empírico. IV Congresso ANPCONT. Natal: 2010. Disponível em: <http://www.anpcont.com.br/site/docs/congressoIV/01/CCG178.pdf>. Acesso em: 26 nov. 2011.

GUERREIRO, Reinaldo, FREZATTI, Fábio. Em busca do entendimento da formação dos hábitos, rotinas e instituições da contabilidade gerencial. Anais do 4º Congresso USP de Controladoria e Contabilidade, São Paulo, 2004. Disponível em: <http://www.congressousp.fipecafi.org/artigos42004/51.pdf>. Acesso em: 09 dez. 2011.

OYADOMARI, José Carlos T., CARDOSO, Ricardo Lopes, MENDONÇA, Octavio R., DE LIMA, Mariana Ponciano. Fatores que influenciam a adoção de artefatos de controle gerencial nas empresas brasileiras: um estudo exploratório sob a ótica da teoria neo-institucional. 8º Congresso USP de Controladoria e Contabilidade. São Paulo: 2008. Disponível em: <http://www.congressousp.fipecafi.org/artigos82008/193.pdf>. Acesso em: 05 dez. 2011.

MA, Yi, TAYLES, Mike. On the emergence of strategic management accounting: an institutional perspective. Accounting & Business Research, vol. 39, 2009, pp 473-495.

VILLASCHI, Arlindo, BARROS, Geórgia Fernandes. O arranjo produtivo moveleiro de Linhares. Sebrae/ UFSC/ Neitec/ Fepese, 2004. Disponível em: <http://www.neitec.ufsc.br/cd_relatorio/arranjos_produtivos_locais/Artigo_Barros_e_Villaschi-Moveleiro_de_Linhares.pdf>. Acesso em: 09 dez. 2011.

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