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8 de dez de 2012

Sobre a Riqueza Das Nações


Robert Reich, no excelente livro "O Trabalho das Nações", destaca que as fronteiras nacionais, não são mais plenamente definíveis e limitadas, inclusive no que diz respeito ao mercado de trabalho. O estabelecimento de barreiras tarifárias e práticas protecionistas pode agir mesmo em sentido contrário à dinâmica econômica, pois a riqueza das nações não se define mais apenas pela valoração de bens econômicos, mas pela agregação de conhecimento, pela capacidade de trabalho da nação em interação com a economia internacional.


Michael Porter também comunga de pensamento semelhante:
De acordo com a teoria econômica consagrada, os fatores de produção – mão-de-obra, território, recursos naturais, capital e infra-estrutura – determinarão o fluxo de comércio. O país exportará as mercadorias que mais utilizam os fatores de que é melhor dotado. Essa doutrina, cujas origens remontam a Adam Smith e David Ricardo, e que impregna a economia clássica, é, na melhor das hipóteses, incompleta, e na pior das hipóteses, incorreta.
Nos setores sofisticados, que constituem a espinha dorsal de qualquer economia avançada, o país não herda, mas, ao contrário, cria os mais importantes fatores de produção – como recursos humanos qualificados ou base científica. Ademais, o estoque de fatores do país num determinado momento é menos importante do que a velocidade e a eficiência com que os gera, aprimora e distribui entre os diferentes setores. (Porter, 1999, p. 184)


Porter observou ainda os efeitos negativos de políticas protecionistas, destacando a importância de manutenção de um ambiente competitivo:
A regulamentação da concorrência, através de políticas como a preservação de situações de monopólio, o controle da entrada nos setores ou a fixação de preços, apresenta duas consequências muito negativas: inibe a rivalidade e a inovação, à medida que as empresas se concentram no relacionamento com os reguladores e na proteção das atuais posições; e torna o setor menos dinâmico e desejável, como comprador ou fornecedor. No entanto, a desregulamentação e a privatização em si não são bem sucedidas sem uma rivalidade doméstica vigorosa – o que requer, como corolário, uma política forte e consistente de defesa da concorrência. (Porter,1999, p. 202)
Nessa ordem econômica internacional, as relações de trabalho também sofrem acentuada mutação. A competitividade das nações não se determina mais a partir de uma classe trabalhadora industrial produzindo bens a serem comercializados. Com o acirramento da concorrência e a internacionalização dos mercados, o desenvolvimento tecnológico propiciando cada vez mais alta produtividade e qualidade na fabricação de produtos torna-se fator fundamental na busca por vantagens competitivas.
No entanto, ao considerar a globalização da competição, é preciso enfrentar um aparente paradoxo: embora as empresas de fato se envolvam na competição global e ainda que os insumos como matérias-primas, capital e conhecimento científico agora se movimentem com liberdade por todo o mundo, são fortes as evidências no sentido de que a localidade continua a desempenhar um papel crucial na vantagem competitiva. Primeiro, persistem as diferenças marcantes no desempenho econômico dos países, e dos estados e cidades dentro deles. Segundo, numa vasta gama de setores, os principais competidores do mundo estão localizados em um ou dois países. Essa tendência é sobremodo acentuada se o setor é definido de forma mais restrita, em termos significativos para o estabelecimento da estratégia, e quando se excluem os setores em que as políticas governamentais distorcem a competição. Essa concentração geográfica da estratégia competitiva aparece não apenas nos setores tradicionais, como os de automóveis e de máquinas-ferramentas, mas também em novos setores, como o de software, biotecnologia e materiais avançados. Terceiro, as empresas globais de fato dispersam as atividades por muitos países, mas continuam a concentrar numa única localidade a massa crítica das suas atividades mais importantes para a competição em cada uma das suas principais linhas de produtos ou áreas de negócios. No entanto, curiosamente, essas "bases domésticas", como as denomino, não se localizam todas no país de origem ou sequer no mesmo país. (Porter, 1999, p. 327)
Nesse contexto, Reich caracteriza o trabalho segundo três estamentos básicos: serviços rotineiros de produção, serviços pessoais e serviços simbólico analíticos.
Entende por serviços rotineiros de produção os trabalhos relacionados à manufatura, à indústria, à confecção de bens, de produtos físicos. É o que restou da Primeira Revolução Industrial, não sendo mais o setor que absorve a maior parte da força de trabalho, dados os ganhos de produtividade registrados ao longo das últimas décadas.
Por serviços pessoais, entende as atividades relacionadas à área de serviços, atualmente mais preponderante em termos de geração de empregos.
Acima dessas categorias de trabalho, concentrando e direcionando as decisões (e absorvendo a maior parte dos ganhos), estão os chamados serviços simbólico analíticos, que englobam atividades com características de maior especialização e qualificação, responsabilidade e comando (trabalhos ligados a solução e identificação de problemas, consultoria, gerenciamento, marketing, etc.).
São os indivíduos que compõe a classe dos analistas simbólicos que, no modelo de Reich, capitaneiam o desenvolvimento econômico das nações, através de um círculo virtuoso do trabalho e do conhecimento:
Uma força de trabalho inteligente e capacitada para realizar tarefas complexas, e que consegue transportar com facilidade os frutos de seu trabalho para a economia global, fatalmente atrairá dinheiro para si. A atração pode se desenvolver dentro de um virtuoso relacionamento: profissionais bem treinados e infra-estrutura moderna atraem teias empresariais globais, que investem e proporcionam a esses profissionais funções consideravelmente recompensadoras; por sua vez, essas funções geram mais treinamento em operação e mais experiência, criando assim um poderoso atrativo para outras teias globais. À medida que as aptidões aumentam e a experiência acumula-se, os cidadãos de um país agregam valores cada vez mais altos à economia mundial, merecendo crescentes compensações e elevando seu padrão de vida. (Reich, 1994, p. 248)
Peter Drucker também havia considerado sobre a crescente importância do trabalho firmado no conhecimento, tendo observado a respeito:
Uma sociedade dominada por trabalhadores do conhecimento está sob ameaça de um novo conflito de classes: entre a grande minoria dos trabalhadores do conhecimento e a maioria das pessoas que ganha a vida à maneira tradicional, seja pelo trabalho manual, qualificado ou não, seja em serviços, também qualificados ou não. A produtividade do trabalho do conhecimento – ainda muito baixa – irá se tornar o desafio econômico da sociedade do conhecimento. Dela dependerá a posição competitiva de cada país, indústria ou instituição da sociedade. A produtividade do trabalhador em serviços, sem conhecimento, será o desafio social da sociedade do conhecimento. Dela dependerá sua capacidade para dar rendas decentes e, com elas, dignidade e posição social aos trabalhadores sem conhecimento. (Drucker, 1999, p. 201)


Desta maneira, para geração de riqueza e bem-estar econômico, mostra-se fundamental a capacitação de trabalhadores qualificados, que agregam valor às teias econômicas que interagem no cenário global.
Os últimos quarenta anos da economia mundial renderam uma outra lição a respeito do que funciona: investimentos no exterior não "exportam empregos", ao contrário, criam empregos no mercado doméstico. Deveríamos ter aprendido isto com o desempenho dos EUA nos anos 60. Quando as multinacionais americanas expandiram rapidamente seus investimentos – na França, na América do Sul, no Japão – a economia doméstica criou empregos rapidamente. E quando, nos anos 80, as multinacionais americanas voltaram a fazer grandes investimentos no exterior, particularmente na Europa – mais uma vez a taxa de emprego doméstica cresceu depressa. O mesmo vale para o Japão, onde, como já dissemos, os empregos criados pelos investimentos em rápida expansão no leste da Ásia – com pesados investimentos em fábricas que produzem bens para o mercado japonês – não destruíram empregos, mas os salvaram em grandes números. Vale igualmente para a Suécia, que, de todos os países industrializados, foi o que mais investiu em fábricas no exterior.
A razão é o comércio institucional gerado por esses investimentos. Em manufatura – e em muitos serviços, tais como o varejo -, o investimento por trabalhador em maquinário, ferramentas e equipamentos de uma nova fábrica é de três a cinco vezes a produção anual. (Drucker, 1999, p. 132)

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:
DRUCKER, Peter. Administrando em Tempos de Grandes Mudanças. São Paulo: Pioneira, 1999.
PORTER, Michael. Competição. Rio de Janeiro: Campus, 1999.
REICH, Robert. O trabalho Das Nações. São Paulo: Educator, 1994.

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