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7 de out de 2012

Ou o Brasil Acaba Com as Montadoras, ou as Montadoras Acabam Com o Brasil


Decerto que o título deste artigo é um tanto radical, ao comparar as montadoras de automóveis com a suposta "crise das saúvas" ("ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”, frase supostamente de Saint-Hilaire). Porém, o objetivo é chamar atenção para as políticas errôneas adotadas pelo Governo Federal em favor do setor automobilístico - medidas essas que se explicam mais por pressão política e influência que por qualquer lógica econômica, ao contrário do que (não se) diz nos noticiários.
Uma das muitas coisas insuportáveis na televisão hoje em dia é o constante bombardeio de propagandas de automóveis. Procura-se realizar verdadeira lavagem cerebral no consumidor para que adquira um veículo, como se fosse o mais essencial bem da vida.
Também se observa que vez ou outra nos telejornais aparecem desconhecidos especialistas, com a alcunha de economistas, alertando que medidas de desoneração são causa de queda de arrecadação ("renúncia fiscal").
De outro lado, infelizmente, o governo brasileiro vem adotando medidas protecionistas, dificultando e aumentando a tributação sobre bens importados - e particularmente automóveis. O resultado todo mundo já sabe: o carro vendido no Brasil é muito mais caro que o fabricado no exterior.
Cabe, então, fazer algumas ponderações:
Em primeiro lugar, as desonerações que o governo vez ou outra tem realizado em favor do setor automotivo, de per si, são prejudiciais à economia. Por serem medidas de cunho temporário, e com a influência da propaganda massiva, acabam apenas por antecipar o consumo de automóveis. Só que isso acontece em detrimento de todos os demais setores. Afinal, superestimuladas para adquirir carros, as famílias acabam se endividando e, inevitavelmente, tendo que cortar outros itens do orçamento. No final, para aproveitar a promoção de redução de imposto sobre automóveis, muitos acabam comprando um veículo sem realmente necessitarem de imediato, se comprometendo com um longo período de pagamento e, por conseguinte, tendo que cortar gastos em outros produtos e serviços, o que acaba por desestimular a economia em geral. O fraco desempenho do comércio em 2012 é reflexo disso.
Em segundo lugar, o Brasil ficaria muito melhor se liberasse a importação de automóveis. Aliás, exagerando para fins de argumentação, ficaria melhor mesmo se, com essa medida, todas as montadoras fechassem, caso não conseguissem oferecer produtos no mesmo preço e qualidade dos importados. Afinal, como o carro fabricado (montado) no país é muito caro, menos recursos da sociedade seriam necessários para aquisição de veículos, aumentando a disponibilidade de recursos para setores que geram mais empregos - não é o caso do setor automobilístico e a ausência de montadoras em nada prejudicaria a parte desse setor que realmente gera emprego (manutenção e serviços).
Em terceiro lugar, ao contrário do que os corifeus da economia dizem nos telejornais (seja por desconhecimento, seja por desonestidade intelectual mesmo), reduzir impostos não necessariamente diminui a arrecadação. Aliás, essa é a primeira coisa que se diz quando ocorre desoneração tributária em favor do setor automobilístico, o que causa a impressão de ser uma justificativa para não conceder o mesmo benefício para todos os outros setores (isso, sim, incentivaria a economia e a geração de empregos).


Como a carga tributária é muito elevada, a desoneração de impostos liberaria mais recursos para investimento pelo setor produtivo, que é quem realmente movimenta a economia (não é o governo, como também fazem crer alguns desses economistas). Veja-se o caso do fim da CPMF. Tantas ameaças foram feitas, que o setor de saúde ficaria sem recursos, que a arrecadação iria cair, etc., e o que se viu, quase que imediatamente, foi o contrário: a arrecadação brasileira seguiu batendo recordes.
Se desoneração tributária significasse, por si só, queda na arrecadação, simplesmente não existiria a chamada "guerra fiscal", que viabilizou o crescimento de vários estados.
Infelizmente, existe uma conotação que o que é dito nos jornais e telejornais tem caráter de verdade absoluta. Com isso, falácias são difundidas no imaginário popular e as políticas erradas, prejudiciais à sociedade, acabam se firmando. Em prejuízo de todos - salvo alguns setores, como o automotivo. 

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